segunda-feira, 6 de julho de 2015

Entrevista a Marina Holderbaum (Enbarr MacManannán)

Fundadora do Fine na Dairbre Protogrove ADF, primeiro protogrove da instituição religiosa druídica Ár n'Draíocht Féin na América do Sul, Marina Holderbaum, também conhecida no Movimento Reconstrucionista e Druídista como Enbarr MacManannán, é antropóloga, pesquisadora da religiosidade e mitologia gaélica. Marina Holderbaum tem ainda desenvolvido diversos eventos de divulgação da Cultura e Politeísmo Celta em Curitiba, tais como o Airechtas – Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta de Curitiba, pioneira no país em 2013 e com próxima edição prevista para Outubro de 2015; o Projeto Imbas de palestras e música celta desenvolvido em parceria com a Livraria Cultura de Curitiba em 2013; e o Dál Éolais, grupo aberto de estudos célticos durante os anos de 2013 e 2014. Além disso, fundou em parceria com os demais integrantes do Fine na Dairbre uma revista online de estudos célticos, reconstrucionistas e druidistas, a Corr Bolg. Versada em artes como a pirografia e ourivesaria, mantém também uma loja online de trajes, joias e bijouterias reconstruídas ou inspiradas na Cultura Celta e outras Indo-Européias, a Crín Dána.

Slakkos Abonos: Olá, Marina, obrigada por conceder esta entrevista. Como de costume, vou começar perguntando sobre seu caminho no Politeísmo Gaélico. Como você encontrou e aderiu à Espiritualidade Céltica?

Marina Holderbaum: Olá! Eu que agradeço! Bom... Foi um processo longo. Na época em que eu comecei a me interessar não havia material disponível, então tinha que me virar com o que encontrava, que era quase nada e se resumia a livros de história ultrapassados ou livrinhos de magia. Mas, após alguns anos, e ter entrado e saído de alguns grupos Wicca e de Paganismo Tradicional, eu conheci a ADF e o Reconstrucionismo Celta e não larguei mais.

S.A.: Você define a sua fé como Reconstrucionista, Druidista, apenas Politeísmo Gaélico, ou não define de nenhuma dessas formas, e porquê?

Enbarr Mac Manannán
M. H.: Essa pergunta sempre me pega. Acho que um pouco dos três. O Politeísmo Gaélico é um fato, quanto a isso não há dúvidas, e entre os termos Paganismo e Politeísmo a minha opção será sempre Politeísmo. Mas muitos me reconhecem como Reconstrucionista Celta e eu acabei aceitando o fato. E ainda, pertencendo a ADF e compartilhando seus valores, não posso esquecer de mencionar minha religião como Druidismo da ADF, mas o meu Druidismo é específico, apenas aquele que é vinculado a ADF, em um caso em que eu não possa identificar o meu Druidismo como exclusivamente o da ADF prefiro me identificar como RC ou Politeísta Gaélico. 
Exatamente por causa de toda essa dificuldade que o Fine Na Dairbre tem um termo interno para explicar o que é o Druidismo/Reconstrucionismo que praticamos, que é o Duir - Druidismo Utópico Interpretativo Reconstrucionista – que é uma tentativa de Reconstrução da religião Druídica da Idade do Ferro através da Interpretação mítica e arqueológica. Quem quiser saber mais é só entrar no site do Fine, pois lá temos toda a fundamentação histórica e filosófica do nosso termo. Só é bom ressaltar que este termo foi criado do Fine Na Dairbre para ele mesmo, não é um termo aberto a modificações ou auto-designações de outros grupos ou pessoas que não sejam parte do nosso Fine. Este é um termo pessoal nosso e não uma nova vertente, não temos a mínima intenção ou desejo que vire um termo alternativo para as vertentes vigentes é apenas algo para nos explicar e explicar aos outros o que somos com mais facilidade.   

S.A.: A sua fé é para você uma espiritualidade, religiosidade ou filosofia de vida? Explique seu ponto de vista.

M.H.: Religiosidade. Para mim, os termos espiritualidade e filosofia são algo que remetem à falta de vínculos, algo que escolhe algumas partes que interessam e descarta o restante. Para mim, a minha “fé”/”crença” (não gosto muito de nenhum desses termos, pois não acho que precise ter “fé”/”crença” em algo que ao meu ver é real) é uma religião vinculada a uma cultura, é uma religião arcaica (no sentido antropológico de não ser uma religião moderna/mainstream) e tribal, que tem ideais de conduta, tem uma visão de mundo própria e uma teia de crenças e significados rica e única.

S.A.: Como você conheceu a Ár n’Draíocht Féin, o que te cativou nesta instituição e como tem sido seu caminho junto a ela?

M. H.: Foi a ADF que me inseriu no Politeísmo Celta, há uns 12 anos atrás. Na época eu não tinha como me filiar, mas passava horas no site deles lendo e estudando os ritos. Eu fazia parte de um grupo de Paganismo Tradicional/Wicca, mas toda aquela história de misturar de deuses e ritos me incomodava, então comecei a tentar achar algo mais focado e achei a ADF. O que mais me chamou a atenção foi a valorização da cultura e do estudo, o que para mim era maravilhosamente surpreendente, finalmente algo fazia sentido. Algum tempo depois eu consegui me filiar e ao iniciar o treinamento e ver o que se seguiria fiquei ainda mais impressionada, pois os programas de treinamento eram tão completos como uma graduação universitária, não só na teoria altamente acadêmica, mas também nos sistemas de prática e desenvolvimento espiritual. A ADF sempre foi uma inspiração para mim e ao entrar percebi que era muito melhor do que eu pensava.

S.A.: Você é uma pessoa bem envolvida com o Movimento Reconstrucionista e o Druidismo no Brasil, como você administra todas as suas iniciativas e ainda toca um negócio baseado em artesanatos célticos? E quais dicas daria para quem gostaria de levar projetos semelhantes a suas regiões?

Pingente Brigid's Cross, produzido por Enbarr Mac Manannán
à venda em www.crindana.com 
M. H.: Acho que não conseguiria se não fossem duas coisas que se completam. Trabalhar em algo que está intimamente ligado à minha religiosidade e aos meus estudos facilita muito. E claro, trabalhar sem horário fixo é um grande auxílio, pois me permite fazer treinamentos e estudos em horários que eu escolha. Acho que o principal é ter primeiro um certo autoconhecimento, pois para trabalhar por conta é preciso ter motivação, persistência e certeza de que vai trabalhar, não adianta ficar sentado esperando caírem encomendas, ou passando o dia todo na internet, é preciso produzir, criar peças novas, aprender novas técnicas e estudar sobre as peças que está produzindo. E é preciso estipular um horário ou horas de trabalho, para não ficar focado de mais no trabalho e esquecer de outras coisas.

S.A.: Religiões e Espiritualidades são jornadas que, a princípio, seguimos porque explicam o mundo para nós, e para nos aperfeiçoarmos. Dentro desta perspectiva, o que você considera mais gratificante e mais difícil dentro do seu caminho?

M. H.: Verdade. Acho que de gratificante existem várias coisas, como conhecer pessoas que têm a mesma visão de mundo que eu, ou, quando não têm a mesma visão, que sejam capazes de discutir ideias e teorias e nem sempre chegar a alguma certeza. Aprender coisas novas, desenvolver habilidades, todas essas coisas que têm a ver com conhecimento, seja ele externo, interno, natural ou sobrenatural. E junto com tudo isso tem a questão da espiritualidade em si, de ver ela se manifestando em diversas situações, de sentir efetivamente conexões e interações com o mundo natural e o Outro Mundo. Tem tantas coisas... Às vezes são pequenos eventos ou momentos de inspiração, outras apenas sensações, e mesmo coisas corriqueiras as vezes são descobertas como sendo grandes, na verdade.
O mais difícil para mim é o tempo em que vivemos, quando tudo tem que ser rápido e de certa forma efêmero, essa agitação toda atrapalha muito a criação de uma rotina de disciplina mental e concentração e é totalmente antagônica a uma prática espiritual a qual precisa de calma e silencio. Mas claro, sem a internet me seria impossível, por exemplo, conhecer a ADF e fazer parte dela.

S. A.: O Fine na Dairbre Protogrove ADF expandiu-se recentemente para as demais capitais do Sul do Brasil. Como é o treinamento deste Protogrove e no que ele se diferencia dos demais grupos druídicos do país? É possível tornar-se membro? E o que um iniciante poderia esperar e deveria se propor de antemão para fazer parte do Fine na Dairbre?

M. H.: Sim, são 3 sedes, a de Porto Alegre, a de Florianópolis e a de Curitiba, mas a princípio paramos por aí, não temos intenção de estarmos em todo o Brasil, até pela distância e dificuldade de encontros presenciais regulares. O Fine Na Dairbre possui um treinamento básico de 3 anos (isso se a pessoa se dedicar), depois disso há treinamentos mais avançados em práticas que desenvolvemos, o que é opcional.
Eu não conheço o treinamento de outros grupos e por isso não sei dizer o que é diferente, mas nosso treinamento interno segue um modelo parecido com o da ADF, só que com um foco totalmente Gaélico. Além da parte teórica e mítica, também há uma grande parcela de exercícios mentais e práticas espirituais que são desenvolvidas ao longo desses 3 anos, inclusive a questão da prática de magia que é toda modelada segundo o mundo e a simbologia Céltica Irlandesa. 
Sim, é possível tornar-se membro, desde que tenha como vir aos ritos e encontros presenciais de estudo que fazemos. Não temos treinamento online e nem a distância mais. Já tivemos, mas decidimos que não era produtivo e nem essencial para nós.  
Um iniciante tem que saber que o Fine Na Dairbre é um grupo que segue uma religião politeísta e animista, nós não seguimos qualquer conceito Jungiano ou contemporâneo de universalidade divina. Nós estudamos mito, história, arqueologia, folclore e antropologia, para desconstruir a visão de mundo que a nossa sociedade nos ensinou e nos livrarmos dos seus pré-conceitos, a fim de sermos capazes de entender a cultura, o pensamento religioso e as divindades que cultuamos. Acho que o essencial é estar preparado para desconstruir e reconstruir sua visão de mundo e suas ideias pré-concebidas. Se a pessoa não tiver essa disposição ela não conseguirá entender as teias de significado que nos levam a construir nossos ritos, práticas e sistema mágico e por conseguinte só será capaz de reproduzir o que já lhe damos pronto, mas não será capaz de criar de acordo com sua necessidade, que é o objetivo final do treinamento, que cada um seja uma peça fundamental da construção e não só um tijolo lateral.

S. A.: A ADF é até bem conhecida, mas poucos se aventuram a realmente fazer parte dela e seus treinamentos. Sendo o Fine Na Dairbre o primeiro Protogrove da ADF na América do Sul, quais você diria que são os desafios e as perspectivas da ADF no Brasil?

M. H: Pois é... Todas as pessoas que já estão há algum tempo no Druidismo ou no Reconstrucionismo Celta já deram suas voltinhas pelo site da ADF, mas poucos se filiaram para realmente adentrar na experiência dos ADFers. Acho que, até certo ponto, isso se deve a uma questão prática central que é o site ser todo em inglês e esse é um grande desafio a vencer. Alguns poucos textos já estão em português e eu já comecei a traduzir o livro do Dedicant Program, mas até pela quantidade imensa de material, essa tarefa é bem lenta. 
Uma coisa interessante de notar é que a ADF é Indo-Européia, ou seja, grupos que tenham enfoques culturais, nórdicos, eslavos, helênicos, celtas e outros dentro dessa família linguística/cultural também podem se juntar a ADF, pois ela preza pela unidade da estrutura ritual, como ela será preenchida cabe a cada grupo preencher com sua própria cultura. Mas poucos conhecem o trabalho da ADF fora do Druidismo, o que também é um desafio.
A ADF tem um potencial imenso no Brasil. Todos que já entraram no site são capazes de perceber a quantidade de conteúdo e conhecimento que há ali, mas claro, esse conhecimento é apenas a pontinha do Iceberg, lá dentro, nos treinamentos e grupos internos há muito mais, e podem ser apreendidos com um certo esforço e persistência. 

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