segunda-feira, 20 de julho de 2015

Reflexão sobre laicidade e homossexualidade

      Eu evito, e eu evito. Mas às vezes sou obrigada a entrar em temas que nada têm a ver com religião. Pelo menos não com a minha. Na tentativa de fazer as pessoas cairem em si, e pararem de misturar as coisas.
Hoje li uma uma notícia acerca de um desentendimento entre Asatrúars sobre homossexualismo, num best-reading site de notícias neo-pagão, o WildHunt. E a notícia é a que se segue: Asatruarfelagid threatened with vandalism over Lgbtq support . Concentra-se, de forma geral, em torno de postagens e comentários contrários e favoráveis à decisão da Asatruarfelagid, instituição asatruar islandesa, de celebrar casamentos entre homossexuais, publicados através do facebook. Ou seja, a reportagem se trata de fofoca internética. Se trata de dar amplitude desnecessária e um tanto quanto perigosa, a uma picuinha entre indivíduos de uma mesma religião. E dá ibope, viu, dá porque se trata de um tema em voga na atualidade, concernente a certas agendas políticas e religiosidades abraãmicas igualmente radicais. Pra quê que eu tou repassando a fofoca adiante aqui? Para implorar, pelos deuses, parem de meter assuntos de política e de outras religiões nos movimentos reconstrucionistas politeístas, e se possível em todo o Neo-Paganismo, que isto em nada auxilia o pleno resgate e desenvolvimento destas fés, ao contrário, só gera desunião, balbúrdia.
      É balbúrdia sim, balbúrdia midiática. Fofoca de pseudo-jornalista que não tem conteúdo ou competência e sai à tôa explorando qualquer pequeno evento relacionado a algum tema comum e, de preferência, polêmico. Eu vou mostrar para você, leitor, como é só balbúrdia, criação de "treta" mesmo.
     A chamada da notícia diz que a instituição vem sendo "threatened with vandalism", ameaçada de vandalismo, devido ao seu apoio à causa LGBT. Bem, vejamos o teor destas mensagens: “At least three groups have been talking about going to Iceland,” Hilmar told The Wild Hunt. “They say, ‘it’s our temple, it’s our heritage, and these Icelandic idiots are doing it all wrong.'”  [...] These re-consecration ceremonies reportedly would involve scattering blood throughout the temple, which goes against Ásatrúarfélagið’s condemnation of animal sacrifice in their religious practice. Ou seja, a ameaça de vandalismo é ir até o templo que está sendo erigido na Islândia, e lá fazer um rito de consagração que envolve dispor sangue de sacrifício animal no templo. Isso é vandalismo? Dever ser seguindo o ponto de vista da Asatruarfelagid, e do bruxo que escreveu o artigo (pode conferir na auto-descrição dele). Os romanos fizeram isto na Gália para profanar Nemetons: colocaram árvores tidas como sagradas abaixo e espalharam sangue sobre os locais. Então, para um dos dois, gauleses ou romanos, devia ser algo como vandalismo. Mas o contexto é o do Asatrú, um reconstrucionismo da fé nos Aesirs. E a fé nos Aesirs, antes de ser perseguida e levada à ilegalidade, fazia sacrifícios de animais e consagrava novas construções com sangue destes sacrifícios. Várias outras fés também o faziam, inclusive no mundo céltico e romano. Ou seja, não é o fato de dispor de sangue no rito, é como se dispõe e com qual intuito. Em regiões ermas da Escócia, até algumas décadas atrás, ainda se consagravam casas com sangue de animais que seriam consumidos numa celebração. Não tem nada de bizarro ou malévolo nisso. Se você acha que tem, você permanece cristão. Como é que alguém pode classificar como vandalismo uma prática oriunda das fés que busca resgatar? É contraditório, e é um abuso.
     Perceba leitor, que o problema consiste em vários desacordos entre alguns grupos Asatrúars e algumas das posições tomadas pela Ásatrúarfélagid, não a todo o movimento. E não só o apoio ao movimento LGBT é fonte de críticas, mas também a pópria liturgia, fundamental em qualquer religião, e, quem tentou se inteirar do assunto, sabe, há mais alguns temas. Porque a manchete da reportagem fala em vandalismo, e em movimento LGBT como se fosse o ponto central da questão? Vou responder: Porque não interessa à mídia fofoqueira discutir liturgia, interessa discutir quem faz o quê e com quem entre 4 paredes, e se alguém tem um ponto de vista radical e político sobre isso. Tudo envolto em uma linguagem que pretende parecer imparcial, meramente informativa, e bem intencionada. Diga-se de passagem, os textos sagrados do Asatrú, diferentes dos nossos, a Mitologia Céltica, deixam expresso em dados momentos que a homossexualidade era algo depreciativo. Então, se algum grupo Asatrú quer que a religião permaneça sem casamentos religiosos entre homossexuais, não pode estar de todo errado, apenas seguindo a risca e sem alterar a sua tradição. Mas aí estes gênios resolvem usar de redes sociais para criar um mal-estar dentro de seu próprio grupo, e dar a oportunidade para que um problema interno entre eles ganhe proporções enormes. Agridem a própria imagem e a de todo o movimento.
     Eu me recuso terminantemente a discutir, sequer a me preocupar, com a vida sexual de outras pessoas. Não me diz respeito. Ponto final. Suponho que diga respeito a quem é homossexual, ou cristão, ou de certas vertentes políticas, e agora alguns Asatrúars conseguiram meter a todo o seu movimento nesse samba do crioulo doido.
     Parabéns.
     Algumas vezes vieram me perguntar no ask.fm como o RC vê a homossexualidade e se homossexuais podem ou deveriam poder se casar no RC. E eu sempre respondi com o máximo de cordialidade possível, e o mínimo de atenção também. Para não dar espaço mesmo. Mas a minha vontade sempre foi dizer: Meu filho, isso aqui é uma religião, não é uma Carta de Constituição Federal. Não vai te dar direito nenhum, dizer o que você pode ou não fazer. Vai te dar um exemplo de conduta, e o nosso não abrange a homossexualidade. Esta não é em momento algum citada. Quer um direito? Quer poder alguma coisa? Vai lá no Congresso Nacional e demanda. Para de tentar "causar" na internet. Deixe a mim e a minha religião fora da sua meta-política, e vá fazer política de fato, se a questão é assim tão importante para você. Porque o assunto que diz respeito às fés reconstrucionistas é, naturalmente, o resgate e manutenção de uma tradição religiosa outrora sublimada. Não é de jeito nenhum tentar afirmar como cada alma sob a face deste planeta deve viver suas vidas e com quem pode casar. É afirmar apenas como os praticantes destas fés devem viver.
     Se por outro lado você quer ser tradicionalista, quer radicalizar
Wandsworth Shield. Escudo de bronze do período
 La Tène encontrado no Rio Tâmisa, Inglaterra.
, não seja nem de Direita nem de Esquerda, seja Reconstrucionista.* Não se apegue a culturas políticas nascidas a apenas dois séculos em uma sociedade em franca decadência. Se apegue à cultura dos seus Ancestrais, que vigorou e desenvolveu-se por aproximadamente 40 mil anos antes da cristianização, e é tão forte que acabou por absorver esta nova crença, não sendo de fato destruída. Erga-se perante o mundo com um escudo à sua esquerda e outro escudo a sua direita, e sustente que a cultura dos seus ancestrais é muito mais antiga, muito mais desenvolvida, estabelecida, forte. É sua herança, corre nas suas veias por imposição do seu DNA, e é uma construção natural, humana em relação ao meio-ambiente que habita. E o legado que seus antepassados deixaram ao longo dos séculos e milênios enquanto batalhavam para sobreviver e gerar descendência.
     Pare de dar espaço e atenção para liberalidades manipuladoras e estatismos interesseiros. Mantenha a formação e não abra brechas para que nenhum interesse político transforme a você e sua herança em massa de manobra e peões desse jogo que é só deles. Se precisa de um exemplo de conduta, um guia para viver estes decadentes tempos modernos, leia os mitos. É o suficiente.

*Aliás, primeiro saia do facebook. "Radical" que usa facebook é piada.

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